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"Não queremos ser vistos como uma peça de museu"
O grupo cedeu aos pedidos e gravou pela primeira vez um disco acústico. Em Maio apresentam-no em Lisboa e Porto
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Miguel Azevedo
24/01/2017 20H15
Foto: D.R.

Ao longo da carreira, os Simple Minds sempre foram desafiados a fazer um disco acústico mas sempre recusaram. Porque decidiram ceder agora?
Aí está um mistério que acho que nem sei responder [risos]. Se há dois anos me dissessem que hoje os Simple Minds estariam a promover um disco acústico, eu não ia acreditar.

Então o motivo foi muito forte!
Na verdade, foi um amigo nosso que é DJ em Londres, um excelente programador de rádio e que sempre foi um grande fã e apoiante dos Simple Minds, que nos desafiou para isto. Um dia ligou-me e pediu-me para fazermos duas ou três canções acústicas e a reação das pessoas foi incrível, o que nos deixou muito felizes mas ao mesmo tempo surpreendidos. Inicialmente não pensámos gravar nenhum álbum, porque achámos que aquela era uma reação passageira. A questão é que, entretanto, começámos a ser contactados por alguns promotores de espetáculos para tocar aquelas canções ao vivo. E as coisas correram tão bem, que já não havia mais como fugir. Foi quando decidimos ir para estúdio.

Como é que foi pegar nestas canções que já tinham o seu formato original popularizado há anos e dar-lhes uma nova vida?
Todo este processo foi muito interessante para nós, porque, além de termos a sensação de que estávamos quase a criar canções novas, tudo isto acabou por nos proporcionar um regresso a nós próprios e àquela altura em que gravámos estas canções pela primeira vez. E foi muito engraçado percebermos que uma canção é sempre uma boa canção, tenha sido feita ontem ou há 30 anos. Este disco só nos mostra que há muitas formas diferentes de as fazer.

Mas ao vivo elas resultam na mesma?
Sem desrespeito para quem o faz, um espetáculo acústico pode ser uma coisa muito entediante. Geralmente imaginam-se logo duas pessoas sentadas numa cadeira com duas guitarras. Aquilo que nós optámos por fazer foi um espetáculo mais envolvente, com uma outra ambiência. Os Simple Minds sempre tiveram a ver com paixão, energia, atmosfera, diversão, e não podemos fugir a isso. E acho que os nossos fãs estão satisfeitos.

Lançar de novo estes temas no mercado em novo disco despertou alguma nostalgia em vocês?
Claro que há alguma nostalgia, mas acho que ela está sempre presente de cada vez que tocamos estas canções, afinal de contas algumas têm 30 anos. É verdade que este é um novo capítulo nos Simple Minds, mas sejamos honestos: sempre que se mexe no passado, sente-se alguma nostalgia. Isso não tem nada de errado. A nostalgia é uma coisa bonita. Nós só não queremos ser vistos como uma peça de museu
[risos].

E não estão cansados de cantar temas como ‘Promised You a Miracle’, ‘Don’t You Forget About Me’ ou ‘Alive and Kicking’?
Não penso muito nisso. Só penso em divertir o público. Quando subimos a um palco só pensamos em servir um propósito. Estas são as nossas canções. Porquê fugir delas?

Já venderam 30 milhões de cópias em todo o Mundo, mas hoje já não se compram discos como há trinta anos. Ainda vale a pena fazê-los?
Para nós faz, porque esta sempre foi a nossa vida. Nós fazemos música desde os catorze anos e eu não sei não escrever canções [risos]. E sou daqueles que ainda acreditam que os discos são uma forma de manter o público interessado em nós. Para os fãs mais velhos acho que os discos ainda têm o mesmo valor.

Mas perdeu-se muito do encanto pelo formato físico, até por causa da internet!
Perdeu-se uma certa cultura pop. Aquela coisa de estar no quarto com os amigos a ouvir um disco inteiro é coisa que já não existe. Acho que a música era um bem mais precioso antigamente. A música era uma coisa pela qual se esperava ou pela qual se ia à procura. Cresci numa cidade perto de Glasgow, num meio dominado pela construção naval, em que éramos educados a esforçarmo-nos para ter alguma coisa.

Que relação sente que as novas gerações têm com a vossa música?
As gerações mais novas estão mais interessadas em smartphones e em redes sociais. A música é apenas uma coisa que anda por ali disponível. Para nós, quando éramos adolescentes, a música era tudo. Mas devo dizer que também vejo miúdos novos nos nossos concertos. É possível que vão com os pais, mas a verdade é que eles acabam por aparecer.

Os seus filhos ouvem a sua música?
O meu filho mais velho tem 24 anos. Recordo-me que aos 17 ele foi a um festival de música que há aqui em Glasgow. Perguntei-lhe que bandas é que ele ia ver e ele respondeu-me só com nomes de grupos antigos. Perguntei-lhe porque é que ele queria ver só tipos velhos a tocar e ele disse-me: ‘Porque são mais autênticos.’ Por isso é que digo que ainda há esperança [risos].

Os Simple Minds estão a caminho dos quarenta anos de carreira. Se tivesse de destacar um momento especial do início, qual seria?
Acho que teria sempre de destacar o encontro entre mim e o meu velho companheiro de projeto, o Charlie Burchill. A primeira memória que guardo é a nossa amizade, que foi por onde tudo começou. Recordo-me do dia em que a mãe dele lhe comprou uma guitarra baratucha. Aquele foi um momento mágico porque nós não sabíamos bem o que fazer com ela [risos]. Lembro-me depois do Charlie a tocar na rua.

Vocês são hoje pessoas muito diferentes desses miúdos?
O que é que posso dizer? Ainda vivo no mesmo sítio. Hoje sou o dono da casa que já foi da minha avó. Vivo a dez minutos da escola onde andei e não muito longe da minha equipa de futebol. Ainda hoje estou muito ligado às minhas raízes.

Que lugar acha que os Simple Minds ocupam na história?
Não sei. Acho que fui um privilegiado por ter conseguido fazer a minha vida na música. Nós vendemos milhões de discos, mas isso seriam apenas só números se hoje não tivéssemos a noção de que já fizemos muitas pessoas felizes


Memórias de Portugal

Os Simple Minds estão de volta a Portugal. Que recordações tem das suas passagens por cá?
Excelentes recordações. Não conheço ninguém que não goste de Portugal. É quase impossível. Estive em Lisboa e no Porto e são duas cidades maravilhosas. A nossa primeira experiência em Portugal foi nos anos 80, num espetáculo em Cascais, em que abrimos para o Peter Gabriel. Foi uma loucura. Em cada música que tocávamos, o público enlouquecia. E depois de todas as vezes que passámos por Portugal fizemos sempre muitos amigos. Há um assunto que une portugueses e escoceses: o futebol.

Gosta de futebol?
Sim, sou maluco pelo Celtic de Glasgow [risos]. É o típico clube de futebol que está muito junto dos adeptos.

O que conhece do futebol português?
Eu tive muita sorte, porque quando tinha sete anos tive a oportunidade de ver o Eusébio a jogar. O Benfica tinha ido jogar a Glasgow e eu consegui vê-lo em ação. Mais recentemente tivemos o Jorge Cadete, que era um jogador muito querido por aqui.

E o Cristiano Ronaldo, o que acha dele?
O meu filho é completamente maluco pelo Cristiano. Ele é um campeão nato, o que é que se pode dizer? Foi muito bonito vê-lo ganhar o Europeu por Portugal no ano passado.

E música portuguesa, o que é que conhece?
Conheço algumas coisas de fado, mas nem saberia pronunciar nenhum nome.

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OPINIÃO
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