Escovinhas e vassourinhas

Os filhos crescem, mas dentro de nós são sempre pequeninos. Nunca deixamos de os querer proteger. E quando começam a voar, olhamos para o céu desconsolados.
11 set 2015 • 10:37
Margarida Rebelo Pinto

Os nossos filhos são o nosso maior tesouro, a nossa razão de viver, o motor que nos faz avançar sempre, a nossa esperança de vida e na vida, os nossos filhos são sempre o melhor do mundo. E quando temos um, vem aquela tristeza de não ter tido mais, e quando temos dois, sonhamos com três e quem tem três, diz que foi a conta que Deus fez.

Uma grande amiga minha de infância tem seis, porque segundo ela, estavam sempre a crescer e ela adorava bebés. Os filhos têm essa característica: crescem, são pessoas diferentes de nós. Ouvem outras músicas e regem-se por outros planetas. Os nossos filhos são nossos no nosso coração, mas na verdade são deles e do mundo. Por mais que queiramos molda-los à nossa imagem, motivados pelo amor incondicional que sentimos e pelo desejo eterno de os proteger, eles serão sempre diferentes de nós e temos de aprender a viver com isso.

Lembro-me como se fosse hoje do Lourenço com 3, 5, 6 anos. Lembro-me das suas festas de aniversário decoradas com balões e amigos pequeninos como ele que calçavam 26, as mãos ainda papudas e as testas moles, sempre prontos para nos abraçar e receber beijinhos. Lembro-me de o adormecer com a minha mão debaixo da sua cara enquanto lhe fazia festas com a outra. Gostava de lhe cortar o cabelo muito curto. Dizia-lhe, pareces uma escovinha. E ale alisava as pontas dos meus e respondia: e a mãe parece uma vassourinha. Lembro-me de o ver a levantar o dedo à mesa para entrar na conversa uma semana depois de ter começado o primeiro ano. E de aprender uma letra a cada dia. E de lhe ler histórias à noite. E de uma dia me perguntar, ó Mãe se eu ficar muito contente, crescem-me umas asas?

Agora, estou na sala e ele vem com o seu computador e explica-me engenharia genética, discutimos política internacional e os problemas da seca em África e da demografia desorganizada pelos conflitos nas fronteiras da Europa. Mostra-me músicas novas todas as semanas e faz-me chá de limão quando tenho dores de garganta. Mede um 1,88m, o colarinho da camisa é 41, e no entanto, quando olho para ele, vejo-o com a farda do colégio a pôr o dedo no ar, vejo-o a apagar as velas quando eram menos de dez e ficavam ao centro do bolo, e quando beijo a sua testa, ainda é mole, pelo menos no meu coração.

Há 15 anos, quando o ia buscar à infantil, via-o a correr para mim como uma seta ensinada pelo coração e sentia que o coração de mãe é como o Universo, está sempre a crescer e ninguém sabe onde vai parar. Na verdade nunca pára. A minha mãe tem 78 anos e telefona todos os dias aos filhos. E tem saudades minhas quando viajo. Há mais de 20 anos que vai buscar netos à escola. Sou filha de uma super-mãe e sempre quis ser tão boa como ela. É de família. Queremos todos ser iguais à matriarca, padrão e exemplo, modelo e guia, a estrela da companhia.

Os filhos crescem, mas dentro de nós são sempre pequeninos. Nunca deixamos de os querer proteger. E quando começam a voar, olhamos para o céu desconsolados, sabendo que o melhor para eles é deixa-los ir, ou nunca serão autónomos e felizes. Mas é um processo, uma aprendizagem. Há que saber aceitar as mudanças e perceber que deixa-los voar é o único caminho. Não os podemos meter no congelador para que fiquem os nossos bebés para sempre. A vida muda e temos de aprender a mudar com ela. E nunca esquecer que, longe ou perto, pequenos ou crescidos, serão sempre nossos. Como eu sou da minha mãe. E o Lourenço será meu no meu coração. Sempre e para sempre.

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