Em março completa um ano sobre a edição do seu primeiro disco. Como correu o ano de 2016? Musicalmente foi o meu ano mais completo. Pessoalmente foi um ano muito rico. Foi incrível. Consegui lançar o meu primeiro disco, dei mais de 20 concertos em Portugal, em Espanha e em França e fui sempre muito bem recebido por toda a gente, mesmo por aqueles que não me conheciam bem.A sua vida mudou muito à conta deste último ano?Não. Continuo a deitar-me e a acordar muito tarde (risos). Continuo a ir às ‘jam sessions’ que ia e continuo a compor. Acho que está tudo muito igual, só que agora ganho dinheiro. E o Salvador Sobral mudou muito enquanto pessoa?Acho que sim. Acho que finalmente estou numa fase da minha vida em que sei mais ou menos quem sou. Já não ando tão perdido pessoal e musicalmente. Acho que posso dizer que estou a definir uma personalidade da qual ainda não sei se me orgulho, mas pelo menos não me chateia (risos). O que é que foi aprendendo ao longo deste último ano, na estrada, no palco e no contacto com o público?Acho que aprendi que o mais importante na música é a transmissão de sensações. E não têm que ser obrigatoriamente sensações positivas, como o caso de pessoas que vinham ter comigo emocionadas e que choravam. Houve uma vez um homem, a quem a mulher tinha morrido há um ano, que me enviou uma mensagem a dizer que depois de ter assistido a um concerto meu, finalmente tinha encontrado razões para sorrir. São este tipo de coisas que mais me alimentam.As pessoas já sabem quem é o Salvador Sobral, o cantor, e não, por exemplo, o ex-concorrente do ‘Ídolos’?Não posso dizer que a minha música já é conhecida de todos, mas há muitas pessoas que já sabem quem sou. Na verdade, sou uma pessoa muito semelhante àquela que existe fora do palco. Sou extremamente genuíno e espontâneo. Às vezes até demais (risos). Com que perceção é que ficou das pessoas que gostam de o ouvir?Acho que são pessoas que gostam mesmo de música e que não ligam a outras coisas que andam à volta da música. Acho que são pessoas que sentem a música como ela é e que são muito sensíveis a ela. Cumprido o primeiro ano de estrada, o que está a preparar para esta segunda temporada de concertos?Nós já andamos a apresentar duas novas canções que vão fazer parte do pró- ximo disco. Neste momento estou a compor mais em português, até porque o primeiro álbum tinha sido feito maioritariamente em inglês. Porquê? Porque não se sentia confiante para escrever em português?Porque simplesmente não me saía e eu não queria forçar. Hoje em dia as coisas saem mais facilmente, talvez porque passo mais tempo em Portugal. Quanto mais tempo vivo por cá mais me apetece escrever em português.E escreve sobre o quê?Eu sei que é um bocado cliché dizer isto, mas escrevo sobretudo sobre o amor, não só a maneira como sinto o amor, mas também a maneira como acho que a outra pessoa sente o amor. São também letras baseadas em histórias de pessoas que encontro no meio desta vida estranha.Em todas as entrevistas que dá há um nome que é sempre falado: Chet Baker [trompetista e cantor norte-–americano falecido em 1988]. Que admiração é esta?Acho que é mais uma obsessão (risos). O Chet Baker foi o primeiro músico que ouvi quando comecei a escutar jazz. Aquilo arrebatou-me, para mim eram emoções puras em forma de música. Estava ali tudo: angústia, amor, melancolia, etc., tudo num trompete e numa voz. Nunca tinha ouvido uma música assim tão sentida.Que idade é que tinha?Tinha 21 anos. Foi quando comecei a ouvir jazz. Fiquei completamente doido com aquilo, a ponto de ficar obcecado. Comecei a ouvir Chet Baker sem parar e a cantar como ele. Vi muitos documentários, cheguei a imitá-lo a andar e a dizer coisas que achava que ele podia dizer. Acho que só não tomei heroína nem nunca me injetei porque tenho medo. Se não tivesse medo se calhar tinha experimentado só para saber o que ele sentia (risos).Antes de Chet Baker a sua onda era mais Ray Charles e Stevie Wonder!Sim, estava mais nessa onda. Os Beatles também estiveram sempre presentes por causa do meu pai e ainda hoje os ouço pelo menos uma vez por semana. Só que quando descobri o jazz fiquei lá muito tempo. Só agora é que estou a começar a sair da caixa e a ouvir outras coisas, como Capitão Fausto, Samuel Úria, B Fachada e por aí. A paixão pela música surgiu por curiosidade ou porque já tinha ideia de seguir por aí? Eu ouvia música porque era sempre o que me apetecia fazer, de tal forma que mais tarde vim a largar o curso de psicologia que comecei a tirar em Maiorca, onde fiz Erasmus. Mas ouvir música e fazer música já eram duas coisas que viviam de mãos dadas?Sim, porque cantar sempre me saiu muito natural. Quando ouvia já estava também a cantar, a imitar e a experimentar. Isso é fundamental para o crescimento de qualquer músico: imitar, imitar, imitar. Eu roubava um bocadinho daqui e dali, um bocadinho ao Chet Baker, um bocadinho à Billy Holliday, à Luisa Sobral, um bocadinho a mim, misturava tudo e criava a minha própria receita enquanto músico. Era isso que fazia. Mas quando é que decidiu em optar em definitivo pela música?Foi quando deixei de estudar. Liguei à minha mãe e disse-lhe que o queria era fazer música.E ela percebeu?Ela disse-me apenas: "Bem, então tenho que deixar de te mandar dinheiro" (risos). E eu tive que me fazer à vida. Comecei a trabalhar imenso em bares e restaurantes e a fazer concertos todas as noites. Toquei durante oito meses todos os dias, das oito da noite até à meia-noite e meia. Ao final desse tempo parei e disse para mim próprio que isto não podia ser a minha vida e que tinha que fazer a minha própria música. Foi aí que se deu o click!Sim, e foi aí que decidi ir estudar música. A minha irmã também me disse que se não estudasse música nunca conseguiria fazer o que queria e explorar tudo o que tinha dentro de mim.
Já sabe como poderá vir a ser o segundo disco?Tenho vontade de abordar outro lado da música, mais experimental e mais indie, porque ando a ouvir outras coisas fora da caixa. Andava muito metido no jazz e hoje ando a ouvir outras coisas. Quero mudar um pouco. Não quero que o meu segundo disco seja uma continuação do primeiro.
Até que ponto a sua irmã, Luisa Sobral, é uma influência sobre si?Acho que ela é a minha maior influência. É a pessoa que mais admiro, não só musicalmente, mas também pela pessoa que é. Ela tem-me ajudado imenso em tudo. Sempre me aconselhou e eu sempre a ouvi com muita atenção. A opinião dela é sempre importante para mim.
Já disse que a participação no ‘Ídolos’, em 2009, não foi afinal uma coisa assim tão positiva, até porque na altura não sabia muito bem quem era. O que é que tirou de bom dessa participação?O importante foi perceber que aquilo nada tinha a ver com música, que era um programa de televisão e entretenimento. Se alguém me perguntar se deve ir a um programa desses para ser um bom músico eu digo que não. A única coisa boa que se pode tirar dali é aprendermos a lidar com os nervos e com o público.
O júri na altura chegou a chamá-lo de arrogante!Sim, eu quando estou inseguro passo muito essa imagem de arrogante e pedante.
O que é que gostaria de dizer hoje a esse mesmo júri?Ui! Não diria nada. Eles fizeram o que tinham que fazer.